Transtorno depressivo maior em crianças e adolescentes – vale a pena usar antidepressivos?

child depre
Imagem: Dermot Flynn

O transtorno depressivo maior, também chamado perturbação depressiva major em Portugal,  afeta quase 3% das crianças de 6 a 12 anos e quase 6% dos adolescentes de 12 a 18 anos nos EUA. Geralmente o diagnóstico é feito se a criança ou adolescente experimenta sintomas depressivos (mudanças de humor, irritabilidade, alteração dos hábitos alimentares, tristeza e crises de choro, baixa autoestima e pensamentos de morte ou suicídio) por mais de 2 semanas. Os principais manuais recomendam terapia cognitivo-comportamental e outras abordagens psicológicas como primeira linha de tratamento, mas há um número crescente de jovens com depressão maior tomando antidepressivos. Nos Estados Unidos, esta proporção cresceu de 1,3% em 2012 para 1,6% em 2015.

Pesquisadores conduziram uma revisão sistemática e metanálise para investigar se os benefícios do uso de antidepressivos sobrepujam os riscos em jovens com depressão maior. Eles puderam incluir 34 ensaios clínicos, com um total de 5260 participantes entre 9 e 18 anos, que avaliaram 14 antidepressivos quanto à eficácia (determinada pelas alterações dos sintomas depressivos e resposta ao tratamento), tolerabilidade (se houve interrupção da medicação devido a efeitos adversos), aceitabilidade (se a medicação foi interrompida por qualquer causa) e ocorrência de efeitos graves, como pensamentos suicidas. Destes estudos, 65% foram financiados pela indústria farmacêutica e sua qualidade foi considerada muito baixa: 29% com alto risco de viés, 59% com moderado risco de viés e apenas 12% com baixo risco de viés.

Apenas um antidepressivo, a fluoxetina, mostrou resultados satisfatórios, com benefícios maiores que os riscos. A nortriptilina foi considerada a menos eficaz. Imipramina, duloxetina e venlafaxina tiveram as maiores taxas de interrupção de tratamento e esta última foi associada com aumento da ideação e tentativas de suicídio. Os autores concluem o artigo apontando para a baixa qualidade dos estudos, o que limita muito a aplicabilidade clínica da evidência obtida. Tratar estes jovens com antidepressivos ainda é um tiro no escuro.

Confira aqui o resumo do artigo:
Comparative efficacy and tolerability of antidepressants for major depressive disorder in children and adolescents

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *