Incerteza na ciência

Na linguagem comum, dizer que há incerteza tem uma conotação negativa. E em áreas de pesquisa onde o olhar do público é mais atento – como o aquecimento global, predição de terremotos ou riscos em saúde –, o termo “incerteza” gera uma incompreensão ainda maior. No entanto, é importante esclarecer o que os cientistas entendem como incerteza.

A incerteza é usada para expressar o grau de confiança que os cientistas têm nos resultados de suas pesquisas. Desta forma, indicando o que eles ainda não sabem, ou caracterizando uma informação que não é propriamente preto no branco, eles fornecem um limite para o grau de incerteza. Mas alguns entendem que isso torna a pesquisa não confiável, ou que não há “provas”.

Entretanto, para início de conversa, é indispensável ter em mente que são raros aqueles conhecimentos para os quais temos 100% de certeza e que, consequentemente, qualquer probabilidade menor do que isso é considerada uma incerteza. Existe, sim, um corpo de ciência bem fundamentado em princípios solidamente estabelecidos, amparado por amplas evidências, como o fato de a Terra ser redonda, de que germes causam infecções ou mesmo o Teorema de Pitágoras. As novas descobertas científicas muito raramente modificam nossa compreensão dos princípios científicos básicos, e não é este o seu objetivo. O que se quer, na verdade, é acrescentar algo novo ao que já se sabe; é justamente a incerteza o que os cientistas desejam.

Expressar incerteza é difícil para todos, como bem o fez um político americano em 2002:

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“Notícias que informam que algo não aconteceu são sempre interessantes para mim, porque como se sabe, existe o conhecido conhecido; existem coisas que sabemos que sabemos. Também sabemos que existem desconhecidos conhecidos; isto é, sabemos que existem coisas que não sabemos. Mas existem também desconhecidos desconhecidos – aqueles que não sabemos que não sabemos”.

O Sr. Rumsfeld tem razão. Algumas incertezas podem ser conhecidas ou assinaladas. Existe incerteza sobre o quanto a temperatura global irá se alterar caso as emissões de dióxido de carbono permaneçam constantes nos próximos 50 anos, mas os cientistas sabem qual informação seria necessária para resolver isto. É o “known unknown” que pode guiar a direção das novas pesquisas. No entanto, também encaramos o “unknown unknown”: aquelas questões sobre as quais ainda não pensamos, informações que não se sabe ainda que estão faltando.

Às vezes é possível quantificar o grau de certeza – “há 20% de chance de chover hoje” – e existem princípios estatísticos que permitem calcular e expressar a incerteza. Tais princípios questionam a probabilidade de um determinado resultado ser um evento puramente casual, aleatório. Assim, um intervalo de confiança de 95% construído em torno do resultado de uma pesquisa expressa a confiança de que, se a pesquisa fosse repetida 100 vezes, em 95 delas o resultado estaria contido dentro dos limites daquele intervalo. Desta forma, se no mesmo experimento o intervalo de confiança fosse de 99%, deveríamos esperar uma amplitude maior destes limites.

Se você quiser saber mais sobre incerteza, veja aqui:
SENSE ABOUT SCIENCE: MAKING SENSE OF UNCERTAINTY

3 respostas para “Incerteza na ciência”

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